Análise Arkade: Skatesterre mira na estrutura de Tony Hawk’s, mas leva um tombo na qualidade
Skatesterre é um jogo estilo arcade que tenta emular o que fez a série Tony Hawk's Pro Skater se tornar tão especial... mas cai um tombo feio.
Houve uma época em que os jogos de skate dominavam as rodinhas de conversa: a virada dos anos 1990 para os 2000 foi amplamente marcada pelo frenesi de acertar combos milionários ao som de punk rock e ska na saudosa (e ainda relevante) série Tony Hawk’s Pro Skater.
Com o sumiço gradual desse estilo puramente arcade — que segue vivo praticamente por conta de remakes de jogos clássicos –, qualquer anúncio que prometa devolver a jogatina veloz e descompromissada daquela época já desperta a atenção.
É exatamente nessa brecha nostálgica que aterrissa Skatesterre. Desenvolvido pelo pouco experiente estúdio alemão Goon Squad, o título chega com a proposta de entregar uma experiência direta, acessível e focada em combar manobras de forma nada realista para conseguir as pontuações mais altas.

Sem a força do nome Tony Hawk, o estúdio recrutou a skatista e influenciadora holandesa Sterre Meijer (conhecida nas redes como @surfsterre) para dar cara e nome ao projeto. E, ainda que o jogo seja bem intencionado e consiga trazerr um pouco do que fez a série Tony Hawk’s Pro Skater se tornar tão especial, o tombo não demora para acontecer.
O formato clássico dos dois minutos
Se você passou horas da sua vida decorando os melhores trajetos para coletar fitas VHS e letras da palavra S K A T E, Skatesterre vai soar imediatamente familiar. A estrutura das partidas segue à risca a cartilha dos Tony Hawk’s clássicos: temos dois minutos no relógio para explorar pistas compactas e cumprir um punhado de objetivos.

A lista de tarefas inclui alcançar pontuações pré-determinadas, coletar moedas espalhadas em uma única sequência de combo, acertar manobras específicas sobre determinados corrimãos e encontrar itens escondidos pelo cenário. Tudo bem manjado e familiar.
É uma fórmula simples e sem rodeios. Não há tutoriais nem enrolações: você escolhe a fase, o cronômetro começa a correr e o objetivo é sair saltando em half pipes e deslizando em corrimãos e muretas em busca das melhores oportunidades para combinar manobras, aumentar o score e cumprir o checklist de tarefas. Conforme superamos essas metas, liberamos novos mapas, novos shapes para o nosso skate e novas opções de vestuário para personalizar a protagonista.

O formato não é nada inovador, e nem tenta se diferenciar muito da fórmula testada e aprovada por outros jogos. E isso nem chega a ser um ponto negativo: para quem sente falta de um jogo de skate direto ao ponto e sem frescura, Skatesterre pode agradar… pelo menos nos primeiros minutos.
Os tombos
As comparações com a franquia Tony Hawk’s Pro Skater podem não ser justas, mas são inevitáveis — até porque Skatesterre não faz questão alguma de esconder suas inspirações: a disposição dos botões para as manobbras — incluindo grinds e manuals — é praticamente idêntica à que consagrou a série da saudosa Neversoft.

O problema não é se inspirar em um clássico, mas sim ser bem-sucedido em replicar o que fazia aquele clássico funcionar tão bem: a precisão dos controles e o puro e simples prazer de andar de skate por cenários tridimensionais. E é aqui que Skatesterre começa a mostrar suas falhas.
Para um jogo de skate arcade ser prazeroso, a resposta dos comandos precisa ser impecável. Você precisa sentir que o erro foi do seu tempo de reação, e não de uma falha do jogo. Infelizmente, não é isso o que acontece aqui. O tempo de resposta parece oscilar com frequência, e a física muitas vezes se comporta de maneira imprevisível.
A transição clássica de subir ao ar em half pipe para fazer duas ou três manobras, aterrissar em um revert e já emendar um manual para manter o combo vivo — o que seria arroz com feijão do gênero — raramente responde com a fluidez necessária. Além disso, as barras de equilíbrio para grinds e manuals já surgem em um nível de oscilação agressivo demais, que deixa pouquíssima margem para correções.

Para piorar, coisas básicas, como a altura e a distância dos saltos parecem descalibradas em relação aos obstáculos, o que faz com que nossa Sterre virtual fique desengonçada, passando direto sobre corrimãos (a falta que um magnetismo faz…), errando aterrissagens ou colidindo com as paredes de formas, no mínimo, estúpidas.
E não podemos deixar de falar da câmera, que foi posicionada em um ângulo que atrapalha a visão periférica e nos faz dar de cara com degraus ou obstáculos quando já é tarde demais para desviar. As animações das manobras também deixam a desejar — são familiares, mas duras, desajeitadas, sem a fisicalidade rica do esporte — um rascunho de algo que Tony Hawk’s entregava com qualidade há mais de 20 anos.

Em resumo, Skatesterre até copia a estrutura de Tony Hawk’s Pro Skater, mas entrega um gameplay muito menos polido, responsivo e agradável. A gente até pode se esforçar para coletar itens e bater metas de pontos, mas isso simplesmente não é tão divertido — muito por conta de controles imprecisos.
Desperdício de uma estrela
Sterre Meijer representa a nova cara do skate mundial: uma atleta jovem, estilosa e conectada às redes sociais que, por acaso, também é linda feito uma princesa da Disney e manda muito no skate.
A identidade visual da moça — que desconstrói os estereótipos de menina fashion e skatista — poderia ter sido o grande diferencial do jogo para renovar a direção de arte e a própria linguagem de um gênero que, quando muito, está fadado a combinar estéticas punk e grunge dos anos 90.
Infelizmente, porém, o jogo praticamente não aproveita a presença de sua estrela. Não existem cutscenes, diálogos ou qualquer contextualização sobre a trajetória da Sterre da vida real. O modo carreira é uma sucessão de missões de 2 minutos que descrevi ali em cima, sem qualquer contexto ou tentativa de ser mais profundo.
Nem mesmo o lado mais personalizável do jogo — que poderia ser explorado pela veia fashion/influencer da moça — acerta: tudo é resumido a menus estáticos e burocráticos, onde desbloqueamos poucas variações de cores para poucas peças de roupa e estampas para a prancha do skate.

É um jogo que merecia ser mais estiloso, mais vibrante, mais aesthetic. Ele não chega a ser feio, mas cumpre apenas o básico do básico, sem tentar conversar com a persona da atleta que dá nome ao jogo ou com a própria cultura do skate contemporâneo.
A trilha sonora, por sua vez, até injeta um pouco de atitude com faixas enérgicas de skate punk e rock alternativo… mas é tudo bem lado B — não venha esperando as clássicas do Offspring, do Goldfinger ou do Rage Against the Machine. A lista de músicas é enxuta, e composta por bandas que você só conhece se for um entusiasta do punk rock indie.
Conclusão
Skatesterre é um projeto que claramente inspira-se em uma era específica (e muito querida) dos videogames — e, mais especificamente ainda, busca recriar o loop de gameplay que fez toda uma geração de jovens se apaixonar por skate mesmo sem nunca ter subido em um.

A intenção de resgatar o skate puramente arcade — rápido, descompromissado e movido a póntuações insanas — típico dos jogos da franquia Tony Hawk’s Pro Skater é louvável… Contudo, esta boa vontade não compensa a carência de polimento mecânico e de mais qualidade em praticamente todos os aspectos.
Skatersterre é um jogo capenga, que chama mais atenção por aquilo que lhe falta: falta um gameplay mais gostoso e preciso, personalidade e, principalmente, falta a diversão de outrora. Ele é bem intencionado, mas não entrega o mínimo (tecnicamente e mecanicamente) para poder ser considerado bom.

Se você é um fã hardcore do estilo que está órfão de jogos de skate mais arcade, Skatesterre até pode render alguns breves bons momentos. Mas, quando as limitações do jogo tornam-se maiores do que as qualidades, o tombo é inevitável (e dolorido).
Skatesterre está disponível para PC, Playstation 5, Xbox Series e Nintendo Switch 2.




